Topo

Notícias

Notícias

27.10.2012

Recife a Fortaleza no Flamingo - relato de viagem de ultraleve!

Relato de Viagem

Trajeto:  Recife a Fortaleza

Aeronave: Flamingo

Data: Setembro de 2012

Evento: 9o ERANN - Encontro Regional de Aviação Norte Nordeste

Pilotos: A. Amorim e J. Costa

 

No momento em que escrevo este relato, ainda me considero um jovem piloto de ultraleves, com 30 anos de idade e menos de 2 anos de carteira. Na minha CIV tenho registradas cerca de 120 horas de voo, em sua grande maioria são passeios locais nas praias de Pernambuco e da Paraíba com o Fox V5, um ultraleve básico. Minhas maiores navegações com o Fox foram inferiores a 100 milhas, de Recife a Caruaru (SNRU) e para a Fazenda Antas. Numa próxima oportunidade irei escrever sobre elas.

 

Nos últimos meses tenho voado com alguns amigos em seus Flamingos, um ultraleve avançado de asa alta produzido pela Aeropepe. Trata-se de uma bela máquina, sem montantes, com curvas bem trabalhadas e toda em materiais compostos. O Flamingo exibe uma performance invejável, chegando facilmente a um cruzeiro de 120 mph, o dobro da velocidade de cruzeiro do meu Foxzinho V5.

 

Em meados de Julho de 2012 fui convidado pelos Cmtes. Bandeira e Jorge Costa (carinhosamente chamado pelos colegas aqui de Recife de COT, manchado, Michael Jackson e vários outros apelidos) para ir com um deles no Flamingo até Fortaleza participarmos do ERANN que se realizaria no Catuleve.  Fiquei bastante animado e me organizei no trabalho para poder tirar a sexta-feira livre e fazer a viagem.

 

Vários outros colegas de Recife (SNEM) também decidiram ir ao evento. Boa parte deles decidiu seguir pela linha do litoral, curtindo as paisagens. Eu e o Jorge decidimos ir DCT, em proa direta, são 325 milhas de SNEM ao Catuleve.  Seria minha primeira navegação "de verdade".

 

Usei o fabuloso App de iPhone/iPad Copilot para ajudar nos cálculos. Esse aplicativo calcula automaticamente as durações das pernas do voo e o consumo de combustível, inclusive levando em conta os ventos em rota (ele faz o download das previsões). Nos cálculos que fiz, levaríamos pouco mais de 3 horas de voo a 10.500 pés, teríamos um ventinho de 12 nós nos empurrando.

 

No dia do voo, me acordei cedinho e dei carona no Fiat 500 para os amigos Bandeira e Bandeirinha. Cada um deles mede mais de 1,9m e foi bem divertido ver que mesmo assim couberam no versátil cinquecento, cujo habitáculo pareceu menor que o do ultraleve Flamingo.

 

Encontrei o Cmte. Jorge Costa, que chamarei no resto deste relato de COT, abastecendo o Flamingo. Checamos o avião e ele vestiu um "lindo" macacão azul para o voo. Disse que era para não ter frio.

 

O voo de ida foi ótimo, céu com pouca nebulosidade, iniciamos a subida a 1.000 pés/minuto no Flamingo até atingirmos cerca de 2.000'. Daí mantivemos 200 pés/min, com uma velocidade indicada de 100 mph até 10.500 pés, quando nivelamos e o avião começou a "correr". O vôo transcorreu sem nenhum imprevisto, com o Flamingo muito dócil.

 

Um fato engraçado ocorreu quando estávamos perto da terminal de Natal (RN). Meu amigo COT estava ao comando, e quando ele deixou escapar um pouquinho da rota, o centro Recife, que estava nos controlando, solicitou correção imediata de proa para "evitar área restrita onde está ocorrendo treinamento com tiro real". Nem chegamos perto da borda de tal área, tenho certeza de que o Flamingo aguentaria a primeira rajada de .50 dos Super Tucanos, mas fiquei imaginando a reação do meu companheiro COT quando percebesse que tínhamos sido alvejados. J

 

Quando chegamos perto da TMA de Fortaleza iniciamos nossa descida e nos beneficiamos da grande razão de planeio do Flamingo (19:1), que nos permitiu manter boa velocidade de chegada com consumo mínimo, mantendo rotação bem baixa. O Controle de Fortaleza vinha realizando um ótimo trabalho, eram mais de 50 aeronaves se dirigindo ao Catuleve e o controlador mostrou-se calmo e prestativo enquanto estávamos naquela TMA.

 

Ao atingirmos 2.000 pés e nos aproximarmos do Catuleve, o controle nos transferiu para a frequência local de auto-coordenação. Olhamos por todos os lados procurando outras aeronaves que já estivessem no circuito, mas não havia ninguém. Reportamos entrada no circuito, na perna do vento, girando base e na final.

 

O pouso foi bom, apesar de meu amigo COT ter esquecido de usar o pé direito, o que levou o Flamingo a pousar na parte esquerda da pista. Meus outros colegas de Recife dizem que o COT é de esquerda até na hora de pousar... é, todos temos defeitos.

 

O evento foi super organizado, quando saímos da pista um veículo guia já nos esperava e nos conduziu até o pátio onde abastecemos o Flamingo e o levamos até seu local de estacionamento. Paramos bem do lado da aeronave dos nossos amigos Bandeira e Bandeirinha, foi bem legal ver 2 Flamingos numa tarde bonita do Catuleve.

 

Almoçamos  e curtimos a tarde no evento, que foi muito bem organizado pelos Cearenses. O Catuleve é um modelo de clube aeronáutico, muito bonito e bem cuidado. Foi muito bom conversar com nossos colegas do Catu e aprender com eles sobre como fizeram para viabilizar a construção do clube e como ele é gerenciado.

 

No Sábado assistimos diversas apresentações aéreas, destacando-se os voos arrojados do forrozeiro de primeira Waldonys e a esquadrilha Asa Branca, formada pelos nossos colegas Albrecht, Sabino, que se reuniram lá, começaram a voar juntos e pouco depois já estavam fazendo um belo show em formação (clique nos links para ver os vídeos).

 

A volta de Fortaleza para Recife seria o desafio pois enfrentaríamos forte vento de proa. O Copilot (app de iPad/iPhone) me indicava um voo de 4 horas e meia. Meu amigo COT quis encher todos os 3 tanques do Flamingo, que totalizam 150 litros. Com esta carga, o Flamingo tem uma autonomia de 7 horas de voo + 1 hora de reserva (e mais alguns minutos de "cheirinho").

 

Indaguei meu colega dizendo que era AVGAS demais, sugerindo decolarmos um pouco mais leves, mas ele me veio com a tradicional anedota para manicacas: "gasolina, pista e mulher nunca é demais". Como ele era o dono do avião e mais experiente que eu, aceitei.

                                                                                                                                                         

Vários de nossos colegas de Recife decidiram voltar pela praia, parando na maravilhosa fazenda bebida velha (SNZO) para um almoço oferecido pelo grande Cmte. Adolfo. Eu e Jorge decidimos tirar direto para Recife, para tentarmos chegar a tempo de almoçar com nossas famílias.

 

Decolamos do Catuleve e começamos a subir até 7.500', nossa altitude planejada. A primeira hora de voo ocorreu sem maiores incidentes. O vento forte de proa nos deixava com uma velocidade solo (GS) baixa, mas isso já era esperado. Em algum momento começamos a ver nuvens no nosso nível, e solicitamos ao centro Recife subir para 9.500', no que fomos prontamente atendidos.

 

Em determinado momento perdemos contato com o Centro... meu amigo COT estava pilotando e eu fiquei tentando todas as frequências que tinha anotado mas não conseguia resposta em nenhuma. Meu amigo então me sugeriu tentar a torre de Mossoró, que tínhamos sobrevoado a alguns minutos antes. Tentei e bingo! O controlador me respondeu em alto e bom som imediatamente. 1a lição do dia: quando o centro não responder, procure os "pequenininhos", as torres, que elas também podem lhe ajudar.

 

Prosseguimos na rota, sempre corrigindo a proa para não nos desviarmos do objetivo. Eu e o COT nos revezávamos na pilotagem. Em um determinado momento percebi que as nuvens esparsas que estavam abaixo de nós tinham se transformado num tapete... Não dava para ver o chão....

 

Comecei a ficar preocupado... já tinha lido vários relatos sobre quebrar as regras de voo VFR, perigos de voar no topo e ter uma pane de motor... desorientação espacial dentro da camada...

 

Sempre que lia um relato de incidente ou acidente relacionado ao tema pensava "poxa, como o piloto se coloca numa situação dessas?" isso nunca iria me acontecer... eu nunca seria tão burro.  Mas tinha acontecido, eu estava voando acima da camada, sem ver nenhum buraquinho. É nessas horas que somos surpreendidos e notamos como as vezes somos arrogantes ao comentar o “vacilo” de outros pilotos.

 

Sem falar nada para meu parceiro, que estava no comando do Flamingo, comecei a elaborar um plano para sair daquela situação e elegi três prioridades:

1. Ficar extremamente atento procurando um buraco na camada e  descer no primeiro que achássemos viável;

2. Monitorar as condições meteorológicas de Recife;

3. Manter a proa sob constante vigilância. Se chegássemos lá ainda com o tapete em baixo, teríamos que ter muita gasolina para orbitar tranquilamente até acharmos um buraco.

 

Para não assustar meu colega, comecei a executar a observação da camada.  Disse a ele apenas que talvez tivéssemos que descer antes de Recife para não ficarmos voando no topo. Ele concordou sem pestanejar e continuou pilotando.

 

Enquanto isso liguei o iPhone, deixei o PilotWiz aberto. Quando consegui sinal de conectividade, tentei atualizar o TAF/METAR dos aeroportos (não quis pedir briefing meteorológico ao centro para não ocupar a fonia nem estressar meu copiloto).

 

Na primeira tentativa não consegui, mas quando passamos na vertical de uma cidade maior, peguei o sinal e consegui atualizar. Tem que ser rápido, pois quando se está alto, se entra e sai da área de cobertura de uma estação de celular rapidinho.

 

Descobri que Recife e João Pessoa operavam VFR,  que já foi um alívio. Uma camada broken estava a 3.500 pés e outra a 7.500. O melhor era descer, não seria agradável chegar na TMA sem conseguir pousar e ter que ficar rodando lá por cima.

 

Conversei com meu copiloto novamente, e fomos prosseguindo. Depois de alguns bons minutos (ou será que foram mais de 1 hora), apareceu um buraco... não era uma ampla cratera, mas era um buraco onde seria viável descermos.

 

Reduzimos o motor, abaixamos o nariz e fomos em frente. Ao final, saímos abaixo da camada, que estava em 3.000’. Daí minha atenção se voltou para termos todo cuidado possível com o terreno. Aqui em Pernambuco temos algumas serras. Fiquei na carta e no GPS Aera 500 (que tem boa representação de terrain) enquanto meu colega continuou pilotando.

 

Iríamos voar abaixo da camada entre Campina Grande e Recife. Prosseguimos voando, vendo algumas chuvas ocasionais, mas sempre mantendo-nos visual. O tempo não parecia melhorar e decidimos que o melhor era atingirmos a linha do litoral o mais rápido possível pois ali não teríamos problema com obstáculos e em qualquer emergência poderíamos usar a praia para pousar o Flamingo.

 

Assim fizemos, e nessa etapa final o voo parecia que não ia acabar nunca. Uma tensão leve nos mantinha atentos as chuvas (que tínhamos que circular), ao terreno e a proa para atingir a praia. Enquanto isso uma leve turbulência nos balançava de vez em quando.

 

Eu, que estava acostumado a voar no Fox V5 (cruzeiro 65 mph), estaria bem confortável voando a 1.000’ AGL. Meu amigo, acostumado com o Flamingo, que tem o cruzeiro de 120 mph, queria voar o mais próximo possível da camada, pois não se sentia seguro tão baixo. E assim fomos, raspando a camada em cima.

 

Quando alcançamos a praia, depois de quatro horas e meia de voo, eu já estava aflito pois queria ir no banheiro. Meu amigo manteve-se ao comando,firme. Ao chegarmos nas imediações do nosso aeródromo Encanta Moça (SNEM), a vontade de ir no banheiro era cada vez mais intensa.

 

Na aproximação meu amigo entrou alto demais e decidiu abortar e refazer o circuito. Na hora quase reclamei com ele, mas era melhor chegar molhado no chão do que deixá-lo nervoso e terminar chegando morto. Hehehehe

 

Quando fomos virar base novamente, ele disse: “estou alto novamente”.  Notei que ele estava um pouco nervoso e aí minha vontade de ir no banheiro sumiu, dando lugar ao foco necessário para pousarmos. Passei a ajudá-lo, sugerindo tirar o motor, glissar etc. Ele foi aceitando as dicas e fomos levando o Flamingo docilmente até o pouso, em que ele fez um ótimo arredondamento.

 

Quando vi que tudo estava resolvido, com o Flamingo taxiando, a vontade de ir no banheiro  voltou com tudo. Pedi a ele para acelerar  o taxi e consegui resolver meu problema depois de uma corrida ao hangar! Hehehe

 

Finalmente tínhamos pousado depois de um voo de 5 horas! Ainda tínhamos 3 horas de autonomia graças a sábia teimosia do meu amigo COT em decolar full tanque! Se tivéssemos menos gasolina, certamente o voo teria sido bem mais estressante.

 

Chegamos bem cansados. Alguns momentos foram tensos, mas no fim tudo deu certo. Tenho certeza de que aprendi muito nesta viagem com meu amigo COT. Agradeço a ele a oportunidade de ter ido e a Aeropepe por ter fabricado o Flamingo, essa robusta aeronave.

 

Espero que possamos fazer outras viagens em breve! Veja o vídeo abaixo!

 

 

Rua Tome Gibson, s/n – Aeroclube de Pernambuco - Pina - Recife – PE - 51011-480

Receba nossas novidades por e-mail.